Acessível? Onde?

Quantos centímetros de largura tem a porta do banheiro da sua casa? Não sabe? Eu também não saberia.

Não sabemos porque não nos interessa. Porque para passar pela porta do banheiro da minha ou de sua casa, caro leitor, não fará diferença se ela medir 60, 70, 80, 90 centímetros, ou 1 metro. Porque, muito provavelmente, o leitor que não soube responder quanto de largura tem a porta do banheiro da sua casa não integra, assim como eu, os cerca de 24% da população brasileira com deficiência, ou mesmo os mais de 10% de obesos, grupos para quem esse “detalhe” faz muita diferença em suas vidas.

Quando o assunto é acessibilidade, vivemos num mundo de faz-de-conta. Do alto da minha não-necessidade de qualquer infraestrutura especial para atender às minhas demandas mais básicas, como caminhar, subir, descer ou entrar em qualquer lugar, algumas experiências me ajudaram a confirmar – infelizmente – essa tese: ter um sobrinho com deficiência, conviver diariamente, por quase cinco anos, com uma cadeirante e conhecer o engenheiro goiano Augusto Cardoso Fernandes.

Sob o olhar técnico do engenheiro – que pela dedicação aos estudos sobre o tema e a experiência em projetos acessíveis foi escolhido pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 para elaborar o projeto de acessibilidade do evento – percebi o abismo que há entre o que se oferece nessa área e o que se necessita, de fato, para se garantir um mínimo de qualidade de vida a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.

A falta de cuidado está por toda parte: nas calçadas, nas edificações coletivas, nos prédios públicos – onde se deveria dar o exemplo –, nas escolas, nos centros comerciais, nos complexos de lazer e cultura.

As rampas que vemos por aí não são rampas: são “montanhas” de concreto difíceis de serem vencidas até mesmo para quem não enfrenta qualquer dificuldade de locomoção. Habitações erguidas graças a inúmeros programas públicos de financiamento são construídas sem qualquer critério de acessibilidade – ainda que tenhamos legislação elogiável sobre o tema. Comete-se aqui e ali aberrações, como impedir por completo que um cadeirante consiga usar um banheiro de um equipamento urbano ou que possa circular pelas calçadas da quadra do bairro.

A escolha de Augusto Fernandes para coordenar o projeto de acessibilidade das Olimpíadas do Rio, de certo modo, me encheu de esperança. Esperança de que a gente consiga olhar além da própria necessidade – já recebeu em sua casa, que tem a porta do banheiro medindo 60 centímetros de largura, um cadeirante? –; de que tenhamos ocupando cargos públicos agentes que tenham em mente que desenvolver uma cultura de acessibilidade plena é garantir uma vida com muito mais possibilidades. Mas vá lá que barreiras nos desafiam a vencê-las. Que assim seja em relação às existentes hoje.

Deire Assis é jornalista

Artigo publicado, originalmente, na edição de 4 de agosto de 2012.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s