“A garota da estrada”

Dia desses, quando peguei a estrada rumo a Minas, lembrei-me dessa crônica (*) da Martha Medeiros, que eu lera no seu excelente Doidas e Santas. É, na verdade, um falar de novo sobre o mesmo assunto: a beleza, a leveza de não ter pressa.

“Abre a janela do carro e pensa com um sorriso indisfarçado: ‘Estou deixando pra trás aquela outra’. No porta-malas, uma sacola com as roupas que a outra não usa durante a semana – tênis, um jeans surrado, umas camisetas e um biquíni. Seu iPod. Sua câmera fotográfica. Um livro ou dois, porque é preciso terminar a leitura que aquela outra começou, mas nunca tem tempo para concluir. Palavras cruzadas, um vício que ela não conta pra ninguém. Uma garrafa de champanhe, porque na pousada pode não ter. E ela está ao lado do amor da sua vida, coisa que a outra não consegue dar valor, já que é tão atarefada.

Ao passar por cada placa de sinalização, mais distante ela fica da sua cidade e mais perto de si mesma. Os assuntos durante o trajeto? Os mais bobos, os mais sérios, mas nada discutido com pressa e nem comnecessidade de conclusão, a única regra é não deixar de se divertir. Não é todo dia que se sai de férias, mesmo que durem 48 horas de um final de semana. Não são férias de julho nem férias de verão: férias da outra!

Pelo espelho retrovisor lateral, ela percebe que está sem batom. Ora, ele vai beijá-la de novo daqui a dez minutos, nem vale a pena retocar. Claro que ela levou o batom: está indo para um recanto secreto, mas não perdeu o juízo. Deixou na casa da outra as sombras, bases, esfoliantes, mas o batom e o secador, isso ela não consegue abandonar. Não tem mais quinze anos.

Também não tem mais dezoite. Mas quem é que consegue convencê-la de que não é mais uma garota? Aquela outra, a que ficou, bem que tenta. Abre a agenda e mostra todos os compromissos marcados. Avisa que a geladeira está vazia. Coloca sobre a mesa todas as contas pra pagar. Abre o site do banco e analisa seu extrato. Traz à tona as encrencas da família, os problemas dos filhos. Marca hora no médico. E, cruel, se posiciona na frente de um espelho muito maior do que um retrovisor de carro e pergunta à queima-roupa: é uma garota que você está enxergando na sua frente? Uma tentativa de aniquilamento, mas felizmente malsucedida.

Ela lembra disso tudo enquanto está na estrada e pensa: a outra tem razão, alguém temq ue trabalhar, pagar as contas, cumprir a agenda, dar ordens, receber ordens, ser responsável. Mas não todo dia, não toda a vida. Aquela lá, a que ficou, é uma mulher confiável, é uma mulher de olho no relógio e no calendário, uma mulher cumpridora do que esperam dela. Mas ela não pode estar no controle o tempo todo, ela tem que permitir que eu escape dessa organização de vez em qaundo, que eu busque a alegria sem hora marcada, o descomprometimento total, que eu fique à-toa desde a hora de acordar até a hora de dormir, um dia inteiro, dois dias inteiros. Ela tem que aceitar e até mesmo incentivar que eu pegue essa estrada e a deixe de lado, que eu faça iso sem culpa, que eu faça isso por ela.

Eu, a garota dentre dela.”

(*) Crônica A Garota da Estrada, publicada originalmente em Doidas e Santas, da jornalista e escritora de Martha Medheiros (L&PM Editores)

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