Amor de pai (*)

Nesse Dia dos Pais, compartilho artigo da amiga, jornalista, blogueira e “pãe” Luisa, que nos propõe uma reflexão bastante interessante sobre o que trazemos conosco e sobre o que estamos dispostos a construir nessa vida.

Luisa Dias

Ao digitar na busca de notícias no Google as palavras pai ou padrasto, infelizmente é comum encontrar casos de violência extrema envolvendo estas duas importantes figuras familiares como agressores e algozes de crianças e adolescentes ainda fragilizados pelos papeis de filhos ou enteados. As histórias, que já nem surpreendem mais as famílias, já podem ser adivinhadas como os piores enredos de novelas. Estupro, violência física, tortura psicológica e outras insanidades têm ganhado morada na casa de muitos brasileiros, cuja figura do pai que protege a prole dá espaço à de homens de idades e classes diferentes com condutas baseadas na intolerância, no desrespeito e na impunidade.

Segundo dados do Mapa da Violência 2012, Crianças e Adolescentes do Brasil, publicado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, em 60% dos casos de homicídios de crianças e adolescentes no Brasil, os responsáveis integram as famílias das vítimas. São pais, mães, padrastos, madrastas e tios que lideram um ranking triste e avassalador. Mas, afinal, quem são estes sujeitos que, com suas histórias, tornam o Dia dos Pais e todos os outros em um funeral infinito para as suas vítimas e para todos nós, testemunhas desta inversão de valores? O que torna estes homens capazes de ultrapassar o limite sagrado da proteção para a violação da vida de seres indefesos?

No perfil destes criminosos, não há muitas explicações. Das drogas ao ciúme, passando por desvios severos de comportamento determinados pela biologia, surgem muitas dúvidas sobre a motivação e a coragem de cada um deles. Um cidadão comum, ao ler e ainda se chocar com cada uma destas tragédias, sempre faz a mesma pergunta: “como ele fez isso?” Está na nossa incapacidade de reconhecer no caráter do ser humano, nosso semelhante diante de Deus e da sociedade, o estopim desta violência.

O que torna o pai que celebra neste domingo a convivência com seus herdeiros diferente daqueles destacados nas manchetes das notícias é a construção por trás do seu papel. Para se elaborar responsável por outro ser humano, é necessário resgatar em si valores culturais, éticos e estéticos, que vão além do instinto, e estão intrinsecamente ligados ao amor e a elaboração que temos deste sentimento tão nobre.

Do marido ciumento que castiga a mulher lhe tirando a vida dos filhos ao pai capaz de violentar a inocência das crianças sob sua responsabilidade, o denominador comum cuja evidência evitamos reconhecer: a falta do amor. Este sentimento que, civilizadamente, acreditamos nascer junto com os bebês se mostra falível quando os exemplos, os valores e o caráter sucumbem. E sua falibilidade desmascara o amor instintivo que acreditamos ser doado a nós como um dom. Sem ele, nos sentimos desnudos e incapazes de seguir.

Mas é o amor de um pai ou de uma mãe apenas instinto? Ou somos ensinados e convocados a amar? O amor ao próximo que nos torna mais tolerantes, o amor dos nossos pais que nos reconhecem indivíduos únicos e o amor próprio que nos cura as feridas da vida de forma a nos reerguermos são essenciais para a nossa humanidade, mas precisam ser diariamente alimentados com a fé, a gentileza e a perseverança. Em uma família, o amor não é inconteste e sim um compromisso a ser renovado e pactuado entre todos os seus membros diariamente.

Neste Dia dos Pais, os homens deste século devem se propor a uma reflexão profunda e urgente sobre o papel deles nas vidas dos seus filhos. Se já não são mais os únicos provedores de suas casas, visto que as mulheres se tornaram economicamente ativas, há uma demanda enorme que fará diferença para toda a humanidade sendo ignorada por boa parcela da sociedade: o amor. Ensiná-lo, alimentá-lo e construí-lo requer tempo, habilidade, paciência e muito afeto. Mas, sem dúvida, será o amor compromissado entre pais e filhos, padrastos e enteados a cura para as estatísticas de violência e, sobretudo, para a solidão daqueles que nunca tiveram a alegria de se sentirem amados por um pai.

Luisa Dias é jornalista

(*) Artigo publicado originalmente no jornal O Popular, edição de 10/08/2012.

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