E o seu jeitinho brasileiro?

Para a gente pensar um pouquinho na responsabilidade de cada um nessa vida… Artigo publicado originalmente em O Popular, edição de 28 de janeiro de 2013.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais em parceria com o Instituto Vox Populi diz muito sobre como pensamos e agimos. E faz um retrato nada bonito de um brasileiro que condena atos de corrupção, por um lado, mas que, por outro, tolera gestos anti-éticos se praticados por ele mesmo. Um retrato que reforça a imagem de que somos uma gente esperta, dotada de um famoso jeitinho (conhecido além-mar) quando este pode nos favorecer.

O que a UFMG e o Instituto Vox Populi apuraram é que, para a maioria dos entrevistados na pesquisa, práticas ilegais podem ser absolutamente toleráveis e consideradas naturais, por supostamente já integrarem o cotidiano das pessoas. Assim, ações como não emitir nota fiscal; não declarar Imposto de Renda; tentar subornar o policial de trânsito para evitar multa; falsificar carteira de estudante para pagar meia-entrada no cinema; dar e aceitar troco errado; subtrair sinal de TV a cabo; furar fila de banco, de supermercado ou qualquer outra fila; comprar produtos pirateados; bater ponto para o colega de trabalho; e falsificar assinaturas, por exemplo, não foram consideradas na pesquisa condutas irregulares.

 Na semana passada, ao passar por um shopping lotado da cidade, deparei-me com uma cena rara de se ver: agentes de trânsito da Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) notificavam, com autos de infração, motoristas que estacionaram irregularmente em vagas destinadas a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos. A eles há, por lei, uma reserva de vagas em estacionamentos públicos e privados. O acesso às vagas, também por lei, só se dá por meio da apresentação de um cartão de estacionamento para quem possui esse perfil.

 O estacionamento do shopping, naquele dia, estava mais lotado que o usual. Talvez por isso a quase maioria das vagas para pessoas com deficiência e idosos estava ocupada – o famigerado jeitinho brasileiro entrara em ação. Por justiça, agentes de trânsito de caneta e bloco em punho passaram por lá e autuaram os infratores. Mas qual não foi minha surpresa quando percebi, no entorno, a revolta da moçada, indignada com a atitude das autoridades de trânsito. “Que absurdo! Essa gente não tem o que fazer?”, chiaram alguns. “Aí a indústria da multa, oh”, reclamaram outros.

 Lembrei-me, imediatamente e com enorme descrença, da pesquisa citada no início deste texto. Logo pensei que aquela gente que reclamava da ação enérgica dos agentes de trânsito – que deveria, é bom dizer, se repetir em toda a cidade onde abusos se multiplicam no uso do espaço público – certamente faz parte desse grupo que acha normal parar “rapidinho”, “só um minutinho” na vaga destina a deficientes e idosos. Deve mesmo ser uma gente que fura fila, sonega imposto, falsifica carteirinha de estudante, rouba sinal de TV a cabo, aceita troco a mais… Deus me livre dessa gente em função pública.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s