De que lado você está?

Artigo assinado por mim e publicado originalmente na edição de domingo, 3/2, em O Popular. Sobre ódio, amor e escolhas.

Uma cena na tarde de ontem, sábado, parada no sinal, fez conexões em mim com sentimentos que têm me rondado os últimos dias. A cena: uma mulher, grávida e cega, para de frente para a faixa de pedestres e procura, tateando com as mãos, a botoeira para acionar o semáforo. Aproximou-se da mulher um senhor, a quem eu atribuiria, em razão da quantidade de cabelos brancos, aproximadamente 60 anos. Ao tocar a mão da tal mulher, o senhor a assustou. Vi que ele a tranquilizou oferecendo-lhe o braço para a travessia.

Chamei a atenção do meu filho, que me acompanhava, para o gesto solidário daquele homem. Qual não foi minha surpresa quando percebi que ele não seguia na mesma direção que a pedestre. A gentileza, portanto, dobrara. Ao deixá-la do outro lado da rua, voltou para a calçada oposta e seguiu seu caminho.

Aquela cena trouxe, para mim, o conforto de uma resposta: eu posso escolher estar do lado do ódio ou do lado do amor. Na sexta-feira, 1º de fevereiro, o site de notícias G1 Rio Grande do Sul publicou reportagem que mostrava uma iniciativa singela de adolescentes e jovens de Santa Maria (RS), cidade coberta por uma nuvem de luto, tristeza e dor desde o dia 27, quando mais de duas centenas de jovens morreram num incêndio que, até agora, tem ares de negligência, omissão, irresponsabilidade e crime.

A meninada saiu pelas ruas distribuindo abraços. O “Abraço Amigo”, como batizaram a iniciativa, tinha como objeto levar um pouco de calor a quem perdeu tudo, a quem praticamente já morreu também ao enterrar seus filhos, netos, irmãos, sobrinhos e amigos.

Outra reportagem do mesmo portal, de ontem, revelava que moradores de Santa Maria vêm oferecendo suas casas, suas camas, sua comida para desconhecidos que vêm de longe rever familiares e amigos enlutados. Donos de hotéis, ao invés de lucrarem pela alta rotatividade de pessoas, profissionais, voluntários que desembarcaram na cidade em razão da tragédia, abrem mão do pagamento da diária em solidariedade às famílias das vítimas.

Exemplos que se contrastam com outros que se avolumaram, sobretudo nas redes sociais, ao longo de uma das semanas mais tristes da recente história do Brasil. A todo instante, lá estava, em nossa página no Facebook, compartilhado como um vírus piadinhas de mau gosto com o ocorrido na Boate Kiss e críticas descabidas à postura e às ações adotadas por pessoas públicas diante do ocorrido. A meu ver, um bando de gente que acalenta, alimenta e distribui ódio. E as redes sociais, nesse sentido, esquentam os ânimos daqueles que têm preguiça de fazer uma leitura mais honesta dos fatos e de suas consequências.

No carro, ontem, na volta para casa, usei o exemplo daquele senhor de cabelos brancos para falar um pouco para o menino lá de casa sobre solidariedade, companheirismo, gentileza e amor. Ingredientes que nos ajudam a viver e mesmo a nascer de novo, quando assim é preciso. Escolho esse lado da rua. E você?

 

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