As gerações e seus tormentos

geracao zArtigo publicado originalmente no jornal O Popular, edição de 21 de fevereiro de 2013. Espinhoso, o tema mexe com meu coração e meus sentidos…

Eles não se prendem a nada. Na segunda-feira, o jogo novo de vídeo-game, que chegou no sábado, não tem mais graça alguma. Pouca coisa – ou quase nada – parece merecer maior esforço, busca ou sonho. Mudam de opinião quanto ao melhor filme, melhor livro, melhor amigo da vida como quem troca de roupa. Imediatistas, o que hoje é essencial para respirar no minuto seguinte, amanhã não integra mais suas lembranças. Desconhecem o que é alimentar laços – e para o que eles servem. Mas deixam pais, mães e avós boquiabertos com a desenvoltura com que navegam no ambiente digital.

O retrato parece catastrófico. E talvez seja também um tanto exagerado e generalista. Mas o exagero – nem tanto! – faz-se necessário para o que se pretende discutir.

A legião dos adolescentes de hoje, nascidos sob o domínio da tecnologia e das facilidades que ela oferece – sociologicamente denominados de geração Z –, distancia-se cada vez mais do globo real. Aquele em que a luta e o esforço antecedem a vitória e a recompensa. O que exige um pouco mais de esforço é logo abandonado, porque o tempo tem uma outra lógica. O principal desafio tem a ver com os níveis a vencer na partida do vídeo-game. O objetivo: zerar o jogo.

Mas não se zera o jogo da vida assim. Estamos diante de uma geração de adolescentes medicados contra doenças aparentemente cada vez mais comuns e presentes no cotidiano das famílias, como a depressão ou o TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade –, para citar apenas duas delas. Pais e mães envelhecem mais cedo ao frequentar consultórios de psiquiatras que diagnosticam nossos rebentos com esta ou aquela característica que necessita de intervenção – quase sempre de natureza medicamentosa. Parêntese para clarear esta afirmação: claro que se espera que profissionais lancem mão de intervenções deste tipo, quando necessárias. Mas considero que há remédio demais sendo usado para doenças inexistentes. Medicamentalizar a vida tornou-se a melhor alternativa para quem precisa vencer suas dores.

 Quem tem filho adolescente hoje integra uma geração que, segundo quem entende do riscado, encara a vida de uma maneira bem diferente. Uma gente que até escorrega nos comandos do computador, que pode enfrentar certa dificuldade em adaptar-se à montanha-russa das mudanças tecnológicas, mas que vive mais do lado de cá que no de lá. Uma gente que se dispõe, bem mais que seus filhos, a alimentar laços familiares e de amizade. Uma gente que não se sente frustrada por colecionar alguns anos no mesmo emprego. Uma gente cujas frustrações nos vários campos da vida – no trabalho, na escola, nas relações – não são repelidas, como se fossem algo nocivo, mas encaradas como instrumento de amadurecimento. Que saibamos dar à geração Z exemplos de que vale a pena viver assim.

 Deire Assis

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s