A morte da vida privada

biomboA crônica de Fabrício Carpinejar esta semana no Zero Hora foi o impulso que faltava para eu escrever sobre um tema que há muito me provoca: a morte – ou a convalência absoluta – da nossa vida privada.

Na crônica, o escritor gaúcho, jornalista e professsor universitário fala sobre a sina do filho Vicente, de 11 anos, que corre da câmera fotográfica e dos flashes dos telefones celulares como o diabo foge da cruz e os vampiros de água benta. Filho de uma geração, à qual pertenço, bombardeada pelas novidades diárias trazidas pelas novas tecnologias, Vicente é vítima de pais sedentos por compartilhar tudo o que diz respeito à ainda recente vida do menino.

 O fenômeno Facebook – assim como o Twitter, o Instagram e outras tantas redes que nos cercam – nos fez perder a mão. Na esteira, perdemos o senso do ridículo. E, no caminho, esquecemos do sabor que tem o privado. Hoje, já não basta viver algo: tem que viver e compartilhar. O prazer, muitas vezes, está muito mais no compartilhamento que na experiência vivida. E, por vezes, determinamos nossas vivências pelo que temos de compartilhar lá, na rede social.

 Assustador!

 Não se trata de demonizar o Facebook. Sou usuária da rede e de mais uma meia dúzia de plataformas. Também caí na rede! Também necessito dela; trabalho com ela; me divirto com ela; compartilho boas experiências de vida com ela. Mas em algum momento dessa estrada, uma luz se acendeu pra mim. Afinal, há ou não diferença entre o que faço na frente de todos e o que faço na frente daqueles que compartilham da minha vida off?

 Sim, há diferença. Já respondi esta pergunta para mim. Assim, nem tudo vai parar na rede. Há o que desejo hoje acalentar, cuidar, preservar. Só para mim e os meus. Porém, apesar dos cabelos brancos a mais, continuo a ser uma pessoa com tolerância acima da média. Assim como não demonizo o Facebook e o que ele faz com a nossa forma de nos relacionar, tudo bem com quem transforma a rede social num diário público de suas vidas – acordei, tomei café, saí, malhei, trabalhei, almocei, tomei um chopp, comi um doce, cheguei em casa, fui dormir.

 Mas ainda assim, acho que há razões mais interessantes para termos caído na rede. Mas, mais que isso, penso que há um tempero bem especial no privado, ainda que sejamos impulsionados a compartilhar tudo, todo o tempo.

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